Arquivo para junho, 2010

por que Hitler não era vegetariano

Posted in referências on 29 de junho de 2010 by Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região

POR QUE HITLER NÃO ERA VEGETARIANO

Rynn Berry

Tradução: Camilo Álvares

Um dos comentários frequentemente direcionados àquelas pessoas como eu que escrevo sobre pessoas vegetarianas famosas do passado – e sobre como muito delas eram modelos de não-violência e compaixão – é o seguinte: “Mas Hitler não era vegetariano?” Um exemplo disso aconteceu em 1991, quando eu escrevi para o New York Times comentando sobre o vegetarianismo de Isaac Bashevis Singer e como esta importante qualidade da vida de Singer foi ignorada em seu recente obituário. Eu havia entrevistado Singer para meu livro Famous Vegetarians and Their Favorite Recipes e ele havia sido veemente na questão de respeito pelos animais.

Duas semanas depois, sob o título “O Caminho Vegetariano para a Paz Mundial”, o Times publicou uma resposta à minha carta da conhecida autora e ensaísta novaiorquina Janet Malcom. Vale a pena uma citação completa: “A bela carta de Rynn Berry sobre o vegetarianismo de Isaac Bashevis Singer me lembrou do comentário que o Sr. Singer fez durante um almoço a uma mulher que percebeu positivamente que ele havia se recusado a comer um prato com carne e que sua saúde havia melhorado quando ela também largou a carne. ‘Eu faço isso pela saúde das galinhas’, o sr. Singer disse. A crença do Sr. Singer, citada pelo Sr. Berry, de que ‘tudo que se conecta ao vegetarianismo é da mais alta importância, porque nunca haverá paz no mundo enquanto comermos animais”, pode ter deixado algumas pessoas confusas. O que comer ou deixar de comer carne tem a ver com a paz mundial?’ Milan Kundera nos dá a resposta na página 289 de A Insustentável Leveza do Ser: ‘A verdadeira bondade humana, em toda sua pureza e liberdade, pode vir à tona somente quando seu recipiente não tem poder. O verdadeiro teste moral da humanidade (que está profundamente escondido da visão) consiste de sua atitude perante quem está à sua misericórdia: os animais. E, nesse aspecto, a humanidade cometeu uma falha tão fundamental que todas as outras se ramificam a partir dela.’”

A resposta de Janet Malcom a minha carta provocou a resposta de outro leitor do Times. Sob o título “E Quanto a Hitler?”, o escritor criticava a Srta. Malcom por implicar que a aceitação universal do vegetarianismo traria paz mundial porque “Adolf Hitler foi vegetariano por toda a sua vida e escreveu extensivamente a respeito”.

Para mim, esta questão era previsível demais, pois eu ainda não pude falar sobre o vegetarianismo sem que essa questão de mal gosto a respeito do vegetarianismo de Hitler fosse levantada. Invariavelmente, em cada assinatura em livraria, em cada palestra, em cada entrevista por telefone para a televisão, pelo menos uma pessoa me perguntou jocosamente: “Hitler está em seu livro?” ou “Por que você não colocou Hitler no seu livro?”

Em seguida à última carta em Setembro de 1991, o New York Times publicou duas réplicas a essa questão. Sob o título “Não ponha Hitler entre os vegetarianos”, o correspondente (Richard Schwarts, autor de Judaísmo e Vegetarianismo) explicou que Hitler ocasionalmente adotaria regimes vegetarianos para se curar de sudorese e flatulência excessivas, mas que sua dieta principal era baseada em carne. Ele também citou Robert Payne, Albert Speer e outros famosos biógrafos de Hitler, que mencionaram a sua predileção por comidas não vegetarianas como linguiças bavárias, presunto, fígado e caçados. Ademais, ele argumentava, se Hitler tivesse sido vegetariano, ele não teria banido as organizações vegetarianas na Alemanha e nos territórios ocupados, nem teria deixado de pedir uma dieta sem carne ao povo alemão como uma maneira de lidar com a escassez alimentar da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

Sob a manchete “Ele Adorava Pombo Assado”, outra correspondente citava uma passagem de um livro de receitas que havia sido escrito por uma chefe europeia, Dione Lucas, uma testemunha do onivorismo de Hitler. Em seu Gourmet Cooking School Cookbook (1964), Lucas, lembrando de sua experiência como chefe de cozinha em um hotel em Hamburgo durante os anos 1930, se lembrou de ter sido frequentemente chamada para preparar o prato preferido de Hitler, que não era vegetariano: “Eu não quero estragar seu apetite por pombo recheado,” ela escreve, “mas talvez você se interesse em saber que ele era um grande favorito do Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente. Porém, não deixemos que isso estrague uma bela receita.”

Nem mesmo o New York Times de agosto tem uma equipe grande o suficiente para verificar todos os fatos nas cartas publicadas na seção de Cartas ao Editor; então, eu decidi procurar passagens específicas na biografia de Hitler escrita por Payne e The Gourmet Cooking School Cookbook de Dione Lucas que colocam dúvidas sobre o vegetarianismo de Hitler. Com certeza, Robert Payne, cuja biografia de Hitler, The Life and Death of Adolf Hitler, que foi chamada de definitiva, desmente o rumor de que Hitler possa ter sido vegetariano. De acordo com Payne, o vegetarianismo de Hitler foi uma mentira inventada por seu ministro de propaganda Joseph Goebbels para dar a ele a aura de um revolucionário asceta, um Gandhi fascista, se você preferir. É válido citar diretamente a partir da biografia de Payne:

“O ascetismo de Hitler desempenhou um papel fundamental na imagem que ele projetou sobre a Alemanha. De acordo com a lenda amplamente disseminada, ele não fumava e nem bebia, nem comia carne nem tinha nada com mulheres. Somente o primeiro era verdade. Ele bebia cerveja e vinho diluído frequentemente, tinha uma apreciação especial por linguiças bávaras e mantinha uma amante, Eva Braun, que vivia com ele silenciosamente no Berghof. Houve outros casos discretos com mulheres. Seu ascetismo era uma mentira inventada por Goebbels para enfatizar sua dedicação total, seu autocontrole, a distância que o separava dos outros homens. Através dessa demonstração de ascetismo, ele podia alegar que estava dedicado ao serviço de seu povo.”

“De fato, ele era notadamente autoindulgente e não possuía nenhum instinto de asceta. Seu cozinheiro, um homem enormemente gordo chamado Willy Kanneneberg, produzia refeições especiais e agia como um bobo da corte. Apesar de Hitler não apreciar carne exceto na forma de linguiças e de nunca comer peixe, ele gostava de caviar. Ele era conhecedor de doces, frutas cristalizadas e bolos de creme, os quais ele consumia em quantidades assustadoras. Ele bebia chá e café mergulhados em creme e açúcar. Nenhum ditador jamais gostou tanto de doces.”

E aí nós temos: Hitler comia linguiças bávaras e caviar. Nem mesmo a definição mais flexível de vegetarianismo pode ser esticada para englobar estas abominações gastronômicas. Ainda, porque pessoas que não são vegetarianas possuem uma definição elástica do que constitui uma vegetariana, elas acham que pessoas como Hitler que comem peixe, pombo e linguiças são vegetarianas. Por este critério, até mesmo chacais e hienas, que comem frutas e vegetais entre as matanças, poderiam ser classificadas como vegetarianas. A Dra. Roberta Kalechofsky argumenta de forma semelhante em seu ensaio entitulado “O Vegetarianismo de Hitler: Uma Questão de Como Você Define Vegetarianismo”2:

“O material biográfico sobre o alegado ou qualificado vegetarianismo de Hitler são contraditórios. Ele era algumas vezes descrito como ‘vegetariano’, mas seu gosto por linguiças, caviar e ocasionalmente presunto era bem conhecido. Por outro lado, por base nas comidas que se sabe que ele gostava ou comia, a ‘carne vermelha’ nunca é listada. Seu alegado vegetarianismo era frequentemente acompanhado de uma descrição dele como um indivíduo asceta. Por exemplo, no dia 14 de abril de 1996, a edição de domingo do New York Times, comemorando seu 100º aniversário, incluía esta descrição anterior da dieta de Hitler em um artigo publicado previamente em 30 de maio de 1937, ‘Em Casa com o Fuhrer’:

‘É bastante conhecido que Hitler é vegetariano e que não fuma ou bebe. Seu almoço e jantar consistem, portanto, em sua maior parte, de sopa, ovos, verduras e água mineral, apesar dele ocasionalmente se deliciar com uma fatia de presunto e aliviar a monotonia de sua dieta com delícias como caviar…’

“A definição do New York Times de ‘vegetariano’, que incluía comidas como presunto é uma enorme flexibilização da definição de ‘vegetariano’”.3

Uma grande flexibilização, de fato! Mesmo tão cedo quanto 1911, a 11ª edição da Enciclopédia Britânica (um dos mais amplamente consultados trabalhos de referência) definia vegetarianismo como o que se segue: “vegetarianismo, uma palavra relativamente moderna, que começou a ser usada aproximadamente no ano de 1847, aplicada para o uso de comidas das quais peixe, carne e aves são excluídas.”4 Então, realmente não há desculpa para que um editor do New York Yimes escrevendo nos anos 1930 esteja tão desinformado ao ponto de ter chamado Hitler de vegetariano.

Todavia, os biógrafos modernos, que também deveriam saber mais, perpetuaram o mito de que Hitler era vegetariano simplesmente porque eles falharam em fazer sua lição de casa neste assunto; então, seus livros, apesar de esclarecedores em outros aspectos, são falhos. Mesmo médicos que assinaram biografias de Hitler estão risivelmente mal-informados a respeito da dieta vegetariana sobre a qual escreveram com ar de autoridade pomposa. Para citar apenas o exemplo mais recente: o Dr. Fritz Redlich, em seu livro Hitler: Diagnosis of a Destructive Prophet, diz “Vários associados de Hitler, entre eles Otto Wagener, relataram que Hitler se tornou um vegetariano depois da morte de sua sobrinha Angela (Geli) Raubal em 1931. Quando adolescente e adulto jovem, Hitler com certeza comia carne. Ele também comia carne durante seu serviço na Primeira Guerra Mundial e provavelmente antes de seu aprisionamento em Landsberg. O vegetarianismo de Hitler era bem estrito.5 Ele apreciava a comida crua mas não aderia a uma dieta de comidas não cozidas, a qual era uma moda na época. Ele evitava qualquer tipo de carne, com a exceção de um prato austríaco que adorava, Leberknodl (crosta de fígado).”6 É típico que o Dr. Redlich não se sente obrigado a explicar como Hitler poderia ser um vegetariano estrito e ainda cultivar sua paixão por crostas de fígado!

Hitler não se descreveu como um “vegetariano” até 1937. Isso pode ter sido precipitado por uma resposta emocional à morte de sua sobrinha que esteve apaixonada por ele e que pode ter tirado sua própria vida. Isto pelo menos foi o que pensava Frau Hess, um amigo próximo de Hitler: “Ele havia feito tais observações anteriormente, e havia flertado com a ideia do vegetarianismo, mas, desta vez, de acordo com Frau Hess, ele estava falando sério. Daquele momento em diante, Hitler nunca comeu nenhum outro pedaço de carne com exceção de crostas de fígado.”7 Sobre esta passagem, que é citada na biografia de Hitler de John Toland, o Dr. Kalechofsky comenta: “Isso é consistente com outras descrições da dieta de Hitler, que sempre incluía alguma forma de carne, fosse presunto, linguiças ou crostas de fígado.”8

Ainda, poderia-se ideduzir que Hitler não era um vegetariano verdadeiro devido ao seu pobre estado de saúde. Em sua carta ao Times, Richard Schwartz mencionou que Hitler havia sofrido de sudorese e flatulência excessivas. Além destas enfermidades, ele também sofria de apodrecimento dentário, desordens gástricas agudas, endurecimento das artérias (uma doença tipicamente onívora), uma indisposição do fígado9, e ele possuía doença cardíaca incurável (esclerose coronária progressiva)10. Seus médicos lhe deram doses pesadas de drogas que incluíam uma solução de cocaína a dez por cento11, pílulas de estricnina12, e injeções de testículos bovinos pulverizados13. Certamente ele não experimentou a saúde robusta que passou a ser associada com o vegetarianismo; pelo contrário, seus sintomas são aqueles associados com uma alta ingestão de comida animal.

Mais além, durante o Reich, indivíduos vegetarianos foram proibidos de organizar novos grupos ou iniciar publicações. Uma revista vegetariana de destaque, Vegetarian Warte, suspendeu sua publicação em Frankfurt em 1933. Um jornal competidor, The Vegetarian Press, foi permitido a se arrastar durante os anos nazistas, mas severamente debilitado: foi proibido de usar o termo “movimento vegetariano”, e foi impedido de publicar a hora e o local de encontros vegetarianos.

Consequentemente, os vegetarianos, dispostos a correr o risco de aprisionamento ou pior, foram compelidos a se encontrarem em segredo. Hitler ilegalizou a sociedade mazdeana – que era baseada nos ensinamentos vegetarianos de Zoroastra – ostensivamente porque seu presidente, Dr. Rauth, era judeu. Mas todas as outras sociedades vegetarianas foram declaradas ilegais e foram forçadas a se tornar membros da Sociedade Alemã para a Reforma Viva. Membros destas antigas sociedades vegetarianas estavam sujeitos a buscas em suas casas; durante estas investidas, a Gestapo até mesmo confiscava livros que continham receitas vegetarianas. Enquanto era chanceler, Hitler não fez nada para avançar a causa do vegetarianismo na Alemanha. Com uma assinatura, ele poderia ter feito o vegetarianismo a lei dietética do país. Ao invés disso, fez de tudo que pôde para combatê-lo.

Durante o percurso de confirmação de fatos na literatura bibliográfica de Hitler, eu não pude deixar de notar o quão apaixonado Hitler era em sua denúncia dos maus do tabaco. Ele disse, “Eu não ofereceria um cigarro a ninguém que eu admirasse, já que eu estaria fazendo-o um mau serviço. É consenso universal que não fumantes vivem mais que fumantes, e que durante a doença possuem mais resistência.”14 De fato, ele possuía uma oferta corrente de um relógio de ouro pra qualquer um em seu círculo que abandonasse o tabaco. À sua amante, Eva Braun, entretanto, ele deu um ultimato: “Deixe de fumar ou me deixe.”15 Me ocorreu que, se Hitler fosse um vegetariano verdadeiro, ele teria sido tão incisivo contra o consumo de carne quanto era contra o cigarro, mas eu procurei em vão por tal discussão. Certamente, não havia uma oferta por um relógio de ouro para quem abandonasse o onivorismo; nem ele deu um ultimato a Eva Braun de “Deixe de comer carne ou me deixe.”

Finalmente, eu decidi checar a referência ao prato favorito de Hitler em The Gourmet Cooking School Cookbook, de Dione Lucas. Vale a pena notar que Dione Lucas foi uma espécie de precursora da popular chefe “francesa” de televisão, Julia Childe. Uma das primeiras a abrir uma escola de culinária de sucesso nos EUA, Lucas também foi uma das primeiras chefes a popularizar a cozinha francesa na televisão nos anos 1950 e 60. Durante os anos 1930, antes de vir aos EUA, ela havia trabalhado como chefe de cozinha em um hotel em Hamburgo, onde Adolf Hitler era um de seus clientes regulares. Em uma de minhas expedições de caça a livros, eu encontrei uma cópia de seu Gourmet Cooking School Cookbook em um brechó. Tirando a poeira e teias de aranha que se depositaram em sua capa, eu o abri e fui para a página 89. Havia, tão claro quanto o bigode chaplinesco na face do Fuhrer, a receita preferida de Hitler.

“Eu aprendi esta receita enquanto trabalhava como chefe antes da Segunda Guerra Mundial, em um dos grandes hotéis de Hamburgo, Alemanha. Eu não quero estragar seu apetite por pombo recheado, mas talvez você se interesse em saber que ele era um grande favorito do Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente. Porém, não deixemos que isso estrague uma bela receita.”16

Quase tão revelador quanto o primeiro parágrafo era o que o seguia: “Uma das grandes irritações ao se comer pombo são as dezenas de pequenos ossos com que você deve lutar para cada pedaço de carne que pega. A hora que tiver terminado, seu prato parece uma tumba, você está exausta, e há uma suspeita persistente de que a caça não valeu a pena.”17 Sentado em seu abrigo em Berlin, segurando a pistola Walther 7.65 que terminaria sua vida, Hitler deve ter ecoado os sentimentos de Lucas enquanto analisava as ruínas de seu Reich – a tumba que era a Europa, a exaustão física e mental e a sensação de que a caça não valeu a pena. Está tudo aí – a queda do “Reich de mil anos” em um prato de pombo!

Acredita-se que Hitler morreu de uma ferida de arma autoinfligida; sua esposa, Eva Braun, de uma dose de cianeto de potássio autoadministrada. Quando Hitler se consultou com seu médico sobre a forma mais eficiente de cometer suicídio, seu médico recomendou que atirasse através da têmpora, e, ao mesmo tempo, mordesse uma ampola de cianeto de potássio. É notável que Hitler, este suposto vegetariano e amante dos animais, não teve remorso quanto a testar inicialmente o cianeto em seu cão Blondi.18

É irônico que as pessoas estejam tão dispostas a especular sobre a verdade a respeito do comprometimento absoluto de Isaac Bashevis Singer quanto ao bem-estar dos animais, no entanto tão dispostas a crer em um mito sobre o vegetarianismo de Hitler. Também é irônico que minha carta ao editor sobre o vegetarianismo de Isaac Bashevis Singer teria desencadeado uma corrente de cartas que terminaria em explodir o mito do vegetarianismo de Hitler. É claro, não há forte razão por que este mito deveria ter embaraçado um movimento que contribui tanto à “saúde das galinhas”, como Singer uma vez expressou sua preocupação, à saúde dos seres humanos e à saúde ecológica do planeta. Todavia, não dói ter finalmente esclarecido nos arquivos que Pitágoras, Leonardo da Vinci, Tolstoi, Shaw, Gandhi e Singer eram vegetarianos, mas que o Sr. Hitler – que gostava de seus pombos recheados e assados – não o era.

1 Robert Payne, The Life and Death of Adolf Hitler (New York: Praeger, 1973), pp. 346-7.

2 Roberta Kalechofsky, Hitler’s Vegetarianism: A Question of How You Define Vegetarianism, (Ensaio não publicado, 1997).

3 ibid., p.1.

4 Vegetarianism, The Encyclopedia Britannica, 1911 ed., 27-28, p. 967.

5 O itálico é meu.

6 Fritz Redlich, Hitler: Diagnosis of a Destructive Prophet (Oxford: OUP, 1998), pp.77-8.

7 John Toland: Adolf Hitler (Garden City: Doubleday, 1976), p. 256.

8 Kalechofsky, op. cit., p.2.

9 Toland, op cit., p .826.

10 ibid., p. 745.

11 ibid., p. 821.

12 ibid., pp. 824-5.

13 ibid., p. 761.

14 ibid., p. 741.

15 ibid., p. 741.

16 Dione Lucas e Darlene Geis, The Gourmet Cooking School Cookbook (New York: Bernard Geis Associates, 1964), p. 89.

17 ibid., p. 89.

18 Redlich, op. cit., p. 216.

O Mundo Invertido

Posted in feminismo, referências on 20 de junho de 2010 by Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região

Inverta o termo de gênero homem por mulher. Imagine que a palavra mulher inclui, é claro, também o homem, porque seria a palavra mulher que definiria o gênero humano. Imagine que sempre viveu em uma sociedade semelhante à nossa na qual desde que éramos crianças a palavra mulher era usada para denominar tanto o pai como a mãe. Isto é, quando nesta sociedade dizemos mulher estamos incluindo, às vezes sim, às vezes não, os homens (Como você se sente pelo fato de que se identifiquem homens e mulheres com uma palavra feminina?)

Cada dia de sua vida será dessa maneira. Sinta a presença da mulher e a insignificância do homem. Pense na história da humanidade construída, como é lógico, pelas grandes mulheres, as heroínas da pátria, as cientistas, sábias e inventoras. Sinta o poder e a autoridade das mulheres. Os bustos e retratos das mulheres que fizeram história estão em todos os edifícios públicos, nos parques e nos selos. Seus nomes estão nas avenidas e nas ruas. Quando há nomes de homens, geralmente são os esposos, amantes, pais ou filhos das grandes mulheres ou são homens que só existem na fértil imaginação das mulheres (Você pode imaginar uma cidade repleta de imagens das grandes matriarcas? Como é que você se sente em uma cidade assim?).

Recorde como eram as famílias nos filmes, nas telenovelas, nos romances, e talvez em sua própria família. Recorde que a mãe sai todos os dias para trabalhar e o pai fica em casa limpando, cozinhando, lavando, cuidando do bebê, indo ao mercado, procurando alguém para consertar algo que se quebrou ou desmontou em casa, pedindo desculpas ao vizinho pela janela que a Mariazinha quebrou, procurando Rosinha para passar-lhe uma bronca, fazendo contas para saber porque o dinheiro não dá e milhares de outras coisas.

Mas todas crêem e dizem que quem trabalha é a mãe. É ela quem dá o dinheiro ao pai para que compre as coisas que toda a família necessita. O pai fica em casa e não trabalha. O pai bronqueia e se queixa. E quando a mãe chega todas devem estar quietinhas, o pai e todas as filhas, porque a mãe fica mal-humorada, chega muito cansada do trabalho e não tem porque ouvir e tolerar as bobagens da casa. Aos domingos toda a família sai para passear, mas o pai não brinca com você, ele continua com a cozinha e “peguem isso, não façam aquilo”. Em compensação a mãe está feliz, jogando futebol, correndo com a cachorra, comprando sorvetes (Como é que você sente esta distribuição da autoridade dentro de casa? Você pode imaginar o pai fazendo todo o serviço de casa? Como é que você imagina um pai que faz tudo dentro de casa? Com quem você se identifica? De quem você sente pena? Acha que é justo ou injusto?).

Lembre-se que tudo o que você leu durante toda a sua vida só usa pronomes femininos, ela, dela, delas, mesmo quando a referência era a meninas e meninos, mulheres e homens. Lembre-se do livro em que você aprendeu a ler: “a mãe move o mundo; o pai pega os pratos”. Lembre-se de que apesar de que desde pequena disseram a você que as mulheres e os homens são iguais, nas telenovelas, no cinema, nas canções, isso não é assim. As mulheres são as heroínas, as que fazem coisas importantes e se movem na esfera pública. Os homens, quando aparecem, são o bandido do filme, o que abandonou a heroína ou o tonto que escolheu mal a sua mulher.

Toda a vida dos homens gira ao redor de sua mulher e parece que eles só pensam em sua aparência física. Além do mais, os homens nunca são solidários entre eles, sempre fofocando e falando de coisas sem importância ou falando mal do seu melhor amigo.

Nos contos de fadas, os homens sempre têm que esperar serem salvos por uma mulher forte e boa que lhes dará tudo o que eles não podem fazer por si mesmos (Como você se sente sabendo que os homens devem ser salvos pelas mulheres?).

Recorde que embora sempre tenham dito a você que a Deusa não tem sexo, sempre que você viu a imagem dela nas igrejas e santinhos, é uma mulher com uma longa cabeleira branca e na Igreja Católica só as mulheres podem rezar missa e só elas foram eleitas Mamas da Santa Igreja. E, embora na Bíblia exista um relato de que a Deusa criou a mulher e o homem no mesmo ato, o relato mais difundido e o que se conta para as meninas é o de Eva e Adão em que a Deusa criou primeiro Eva e depois tirou Adão da sua costela, para que Eva não ficasse sozinha no paraíso. Mas depois Adão fez Eva pecar ao convencê-la a comer a fruta proibida e desde então a humanidade inteira sofre por culpa do Adão. (O que você experimentou ao sentir que nós mulheres somos princípio e fim do gênero humano, as criaturas mais importantes e amadas da Deusa? Como isso afeta a sua auto-estima? Você pode imaginar uma Deusa? Você se sente à vontade com a idéia de uma Deusa? E de um Papa mulher, quer dizer, uma Mama? Como você se sentiria em uma missa rezada por uma mulher?).

Lembre-se de que a maioria das vozes no rádio e das caras na televisão e na imprensa, quando se trata de eventos importantes como a nomeação de uma comissão pacificadora, a junta diretora de um banco, a eleição na Federação das Indústrias, a secretaria geral de um sindicato, o FMI, etc., são vozes e caras de mulheres. Lembre-se que a Presidente sempre foi uma mulher e que as ministras e deputadas são mulheres na sua maioria.

A polícia e o exército estão majoritariamente nas mãos das mulheres. E embora aos homens lhes tenha sido dado o direito a voto muito depois de que às mulheres, ninguém questiona a igualdade eleitoral. Recorde que na escola todos os seus livros didáticos falam do ponto de vista feminino, a história relata as façanhas das mulheres, sua luta pela liberdade, pela igualdade e pela sororidade. Nos estudos sociais só se lê o que pensaram as mulheres, o que conquistaram as mulheres, porque o progresso humano foi feito por elas e é medido de acordo com o que elas consideram importante.

Em anatomia é o corpo da mulher que é usado para explicar o sistema respiratório, o sistema circulatório, etc. No esporte, os importantes são os esportes que as mulheres praticam… afinal de contas, na Copa do Mundo só os times femininos participam. As compositoras de música são sempre mulheres, com raras exceções, e as grandes artistas plásticas reconhecidas mundialmente são mulheres. A literatura mundial é aquela escrita pelas mulheres. Os romances, contos e poesias dos homens são apenas literatura masculina. E quando há perigo de guerra ou extinção do planeta, todas as que têm o poder, de evitá-la ou não, são mulheres, mesmo que os homens, junto com suas filhas, saiam às ruas para protestar e lutar pelos Direitos
da Mulher, ou como são chamados agora, “Direitos Humanos”.

Lembre-se de que o pai sempre disse que o mundo é assim, não porque não se queira dar importância aos homens – suas caras e seus corpos são vistos nos comerciais e, é claro, nos concursos de beleza – mas porque na realidade a maioria das pessoas que se movem nas esferas de decisão, nas esferas importantes, são mulheres. Embora todos os homens saibam que atrás de toda grande mulher há um bom homem. (Como você se sente sabendo que é a mulher o paradigma do humano? Você consegue imaginar uma esfera pública povoada só de mulheres? Consegue imaginar uma Assembléia Legislativa ou um Congresso composto só por mulheres? O que você sente ao pensar nesse Congresso? O que você sente quando imagina um concurso de beleza de homens?).

Sinta-se verdadeiramente tranqüila e segura com o fato de que nós, mulheres, somos as líderes, os centros de poder, as principais e essenciais em tudo. Que somos nós, mulheres, que outorgamos o voto ao homem e que decidimos o destino do planeta em nome da humanidade. O homem, cujo papel natural é o de esposo e pai, encontra sua satisfação por meio de seu sacrifício por sua família, suas filhas e por dar um oásis de paz a sua senhora. Isto é natural, pois todas conhecemos as diferenças biológicas entre os sexos. Pense na explicação biológica óbvia: a mulher entrega seu corpo inteiro para a reprodução da espécie durante a gravidez e a amamentação e dessa forma, ao homem lhe cabe fazer todo o resto. Além do mais, o corpo da mulher é o paradigma – o desenho ou construção de seu corpo é o protótipo do corpo humano – pois seus órgãos genitais são compactos e internos, protegidos dentro do corpo. Seu corpo tem menos pêlos, característica importante que a diferencia dos primatas, enquanto o homem, muito mais peludo, está mais próximo dos macacos dos quais descende. Pense que os órgãos genitais masculinos são mais expostos, prova de que os homens devem ser educados a brincar com cautela, para assegurar a continuação da espécie. A vulnerabilidade masculina obviamente torna os homens necessitados de proteção. E está cientificamente comprovado que os homens suportam menos a dor e estresse, e têm uma vida mais curta que as mulheres. Assim, é melhor que permaneçam dentro de suas casas e não façam nada mais pesado que os serviços domésticos. (O que você sente quando ouve dizer que a mulher é biologicamente mais forte? Como você se sente com a idéia de que o corpo da mulher seja o paradigma do corpo humano? Acha justo que os homens se encarreguem da criação das crianças e de cuidar das meninas?).

Portanto, é a própria natureza quem determina que os homens são mais passivos que as mulheres e que seu desejo sexual é o de ser simbolicamente envolvidos pelo corpo protetor de uma mulher. Os homens psicologicamente anseiam por essa proteção, tomando plena consciência de sua masculinidade no momento do envolvimento sexual, sentindo-se expostos e vulneráveis em qualquer outra situação. Segismunda Freud, que apesar de ser mulher sabe mais sobre a sexualidade masculina que os próprios homens, já disse que o macho não alcança a verdadeira maturidade enquanto não conseguir vencer sua tendência ao orgasmo fálico e passar para o orgasmo testicular. Quando consegue, finalmente se torna um “homem completo” e pode deixar-se absorver pela mulher. (Você consegue evocar suas experiências sexuais? A sua sexualidade é integral, completa, ou mutilada? Como é que você se sente quando ouve dizer que é uma mulher a que sabe mais sobre a sexualidade dos homens?).

Mas se o homem não aceita tal visão e continua aferrado ao orgasmo fálico, as teorias psicanalíticas, universalmente aceitas e cientificamente comprovadas, demonstram que é porque esse homem, inconscientemente, está rejeitando sua masculinidade. Deve fazer psicoterapia para que seja ensinado a aceitar a sua verdadeira natureza. É claro que essa terapia será ministrada por uma psicóloga que tenha a educação e a sabedoria para facilitar a abertura que se requer por parte do homem para que reconheça sua natureza masculina e possa crescer em busca do seu verdadeiro eu, aceitando seu destino biológico como base moral da família. (Você consegue evocar relações sexuais satisfatórias? Por que foram satisfatórias? Você pode imaginar uma terapeuta falando sobre a “natureza masculina”? O que você sente ao pensar nessa natureza masculina?).

Para ajudar o homem a vencer sua resistência em aceitar seu verdadeiro destino, a terapeuta o levará a tomar contato com o menino que vive dentro dele. Que recorde como invejava a liberdade que suas mães davam à sua irmã. Ela podia correr, subir em árvores e andar a cavalo sem se preocupar em maltratar seus órgãos genitais. Ele lembra também que ela podia usar tênis e shorts, enquanto ele tinha que calçar esses sapatinhos de verniz que lhe machucavam os pés… Rapidamente a terapeuta o afasta desse tipo de pensamentos que fomenta horríveis movimentos masculinistas que são liderados por homens feios e frustrados que não conseguiram uma mulher que os desejem e os protejam. A terapeuta lhe explicará que, obviamente, como sua irmã tem tanta liberdade de movimento, é preciso estimulá-la para desenvolver seu corpo e sua mente para as grandes responsabilidades que a esperam em sua vida adulta. A terapeuta o ajudará a entender que a vulnerabilidade masculina necessita da proteção feminina. Por isso, seu papel nesta vida é menos ativo e a ele são ensinadas as virtudes da abnegação do sacrifício. (Que tipo de sentimentos você sente no seu interior? Como você sente a roupa que está usando agora?).

Por tudo isso, à mulher corresponde a fortaleza, ao homem a observação, a graça, a nutrição, a abnegação. Atrás de toda grande mulher, há um bom homem. O mundo é um berço que se move pelas mãos de um homem abnegado. O homem é um ser incompleto, por isso necessita que sua mulher lhe dê filhas para sentir-se finalmente completo. O homem é do lar, a mulher da rua, o homem se realiza dentro da esfera privada, a mulher na pública. A mulher é forte, independente, racional, por isso não necessita da proteção de sua casa e gosta de andar pelas ruas com suas amigas. (Você consegue sentir-se poderosa por sua capacidade de continuar a espécie e dar dignidade ao homem? O que se sente ao saber que os homens são incompletos, carentes de proteção? Como você se sente sabendo que as mulheres andam pelas ruas e que isso é “natural”?)

Devido à sua inveja do clitóris, ele aprende a esconder seus órgãos genitais e aprende a sentir-se envergonhado e sujo por suas ejaculações noturnas. Aprende a depilar as pernas, as axilas, o peito, a barba e até a usar desodorantes testiculares para sentir-se como um bonequinho, um verdadeiro Ken. Inconscientemente sabe que as mulheres gostam dos jovenzinhos porque são mais dóceis e lindos e por isso tem que tratar de parecer sempre jovem. As mulheres, em compensação, não têm que se preocupar demasiado com seu físico porque elas são admiradas por sua inteligência e força e sabem que sempre poderão conseguir um marido porque eles são estimulados a sonhar com o casamento como única alternativa a sua vida. Além do mais, todos os jovenzinhos acham atraente uma mulher grisalha, com experiência e dinheiro. Eles são ensinados a sonhar com o dia em que sua “senhora” lhe entregará uma recém-nascida mulher para que a cuide e leve seu nome. Sabe que se for um menino, ele é quem falhou, mas em todo caso pode seguir tentando… (Percorra seu corpo, grave os sentimentos que se mobilizaram.)

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Retirado do Manual de Capacitação das Mulheres Jovens, elaborado pela Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) e pela Instituto Latino-Americano para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinquente (ILANUD).

Relato sobre a Passeata contra o Rodeio em Americana/SP

Posted in atos on 5 de junho de 2010 by Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região

No dia 29 de maio de 2010 o CAPRE (Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região) organizou uma passeata contra os maus-tratos aos animais nos rodeios em Americana/SP, sendo a terceira passeata sobre o assunto que ocorre na cidade.

Foram 14 pessoas, de várias cidades: Americana, Piracicaba, Limeira e Rio Claro. Estávamos com quase 900 panfletos (todos entregues), batuques, apitos e duas faixas, andando pelo centro da cidade. Fomos até o terminal urbano panfletar, onde várias pessoas (peões e afins) nos ofenderam, mas em geral a recepção na cidade foi boa.

Após a passeata espontaneamente cada um falou sobre a sua visão do rodeio, sendo que todos concordavam não ter nada contra o show, mas sim contra o uso de animais no evento.

Morre Diego Giménez Moreno

Posted in notícias on 4 de junho de 2010 by Coletivo Anarquista de Piracicaba e Região

Morreu na tarde de hoje (02/06/2010), aos 99 anos, o anarquista, ex-combatente da guerra civil espanhola e militante do Centro de Cultura Social de São Paulo, Diego Gimenez Moreno.

Nascido em 10 de abril de 1911, em Jumilla, província de Múrcia, Diego engaja-se aos 17 anos no movimento anarquista espanhol e em seguida na Guerra Civil. Ferido em combate, é hospitalizado e em seguida, com a vitória franquista, encarcerado no campo de concentração Mauthausen, na Áustria. Uma experiência que descreveu no seu livro Mauthausen – campo de concentração e de extermínio (São Paulo, Edições Hispanoamericanas, 1975, 236pp). Escapa para França, chegando em seguida ao Brasil em 1942, onde participa ativamente das atividades anarquistas na cidade de São Paulo.

Diego trazia um mundo novo em seu coração. Durante uma conferência no CCS pronunciada em 2001, declarou: “O patrão não se discute, suprime-se!” Exemplo de uma existência libertária, deixa um enorme vazio; mas parte após ter semeado muitas primaveras.

Mesmo subtraído ao olhar dos amigos, sua glória perdura na nossa memória, pois a recordação dos grandes homens não é menor que sua presença.

Saudades dos amigos do Centro de Cultura Social!

Fonte: http://www.ccssp.org

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Diego Giménez Moreno participou da Federación Ibérica de Juventudes Libertárias, a qual atuou em conjunto com a CNT e a FAI para a construção do comunismo libertário nas primeiras décadas do século XX na Espanha. Durante a guerra civil, se juntou à Coluna Durruti. Após ser exilado por causa da ditadura franquista, militou no movimento anarquista paulistano. Adepto do naturismo, também defendeu o vegetarianismo e o não consumo de drogas, além de combater o consumismo. Confira uma entrevista que concedeu para a Federação Operária de São Paulo aqui. Abaixo, segue um texto sobre sua vida.

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Diego Giménez Moreno – Um Exemplo de Atuação Anarquista

Marcolino Jeremias

Negando a oportunidade de ter uma vida cômoda dentro da sociedade capitalista, a trajetória de Diego Giménez Moreno no movimento anarquista foi edificada com dedicação, coerência, força de vontade e muita coragem para lutar contra a violência, a repressão, a injustiça, as ditaduras (de direita e de esquerda) e toda espécie de obstáculos que se apresentaram no decorrer do caminho.

Viver clandestinamente, abdicar da companhia de seus familiares, abandonar seu país de origem, ser julgado e condenado a ser preso em campos de refugiados (construídos com dinheiro público), foi o preço que Diego teve que pagar por semear as idéias libertárias de igualdade e solidariedade humana.

Diego Giménez Moreno nasceu no dia 10 de abril de 1911, na Vila de Jumilla, província de Murcia. Filho mais velho de Maria Moreno Muñoz e de Diego Giménez Guardiola, seu pai era trabalhador rural e filiado a União Geral dos Trabalhadores (U.G.T.). Na residência familiar viviam também seu irmão (Roberto Giménez Moreno), suas irmãs (Ana Giménez Moreno e Maria Giménez Moreno, essa última ainda viva) e sua avó materna (Ana Muñoz Avellán).

Na infância Diego Giménez estudou em uma escola pública em Jumilla, onde havia aulas religiosas. Certa vez, o professor castigou fisicamente Diego por não ter respondido uma pergunta sobre o catecismo. Ao informar o episódio ao seu pai, Diego foi transferido para uma escola do sindicato, onde seu pai era filiado. Estudou até os 8-9 anos e foi ajudar seu pai no trabalho agrário.

Na seqüência, a família de Giménez fixou residência em Badalona (Barcelona-Catalunha), buscando melhores condições de trabalho.

Inicialmente, Diego (aos 12 anos) começou a trabalhar numa fábrica de velas, para ajudar seu pai que trabalhava na empresa francesa Cros de produtos químicos. Pouco tempo depois Diego já estava trabalhando na empresa italiana Metagraf, que reunia trabalhadores gráficos e metalúrgicos.

Nessa época, seu pai trouxe o livre “Manolín – Leyenda Popular” de Estéban Beltrán Morales (4ª edição, 1910, Espanha) e esta foi sua primeira leitura socialista.

Em 1928, Diego Giménez (com 17 anos) perdeu seu pai, que morreu aos 42 anos por intoxicação aos produtos químicos com os quais trabalhava e se tornou o homem mais velho de sua família, redobrando sua responsabilidade.

Após o final da ditadura espanhola (1923-1930) e das eleições de 14 de abril de 1931, com a vitória do Partido Republicano, surgiram diversas publicações de caráter anarquista, das quais Diego Giménez Moreno teve acesso, entre elas: La Novela Ideal (de Federico Urales, Pseudônimo de Juan Montseny), La Revista Blanca, El Luchador, Generación Consciente (posteriormente Estudios) e a partir dessas leituras sobre pedagogia libertária, medicina natural, educação ambiental, tecnologia, entre outros, tornou-se anarquista e começou a militar no Sindicato das Artes Gráficas, onde tornou-se tesoureiro, secretário e depois presidente do Sindicato.

Nas palavras do próprio Giménez: “Fui presidente do Sindicato das Artes Gráficas e isso não é um orgulho para mim! Não é um prêmio! É uma obrigação que eu tive no terreno do sindicalismo… Durante a guerra civil, tentei deixar meu cargo e não me permitiram. Naquela noite chorei… Chorei sim, na assembléia, porque vi que eles queriam que permanecesse ali”.

Em 1934, Diego se casou com Maria Roger Aguilar, e no ano seguinte nasceu seu primeiro filho Helios Giménez Roger.

Em 17 de julho de 1936, quando o exército do general Franco se levantou contra a República e Barcelona se insurgiu contra o golpe de Estado, Diego Giménez Moreno participou da revolução armada nas ruas.

No dia 26 de julho de 1936, o Sindicato de Barcelona proclamou a volta ao trabalho. Na fábrica onde Diego trabalhava (Metagraf) juntamente com cerca de mil operários, o patrão fugiu e nomeou-se um comitê autogestionário composto por um trabalhador de cada secção industrial, para dar continuidade
ao trabalho fabril. Diego coordenou uma pequena secção na indústria de embalagens.

Em setembro de 1937, Diego Giménez chegou ao front de guerra, a 30 quilômetros de Zaragoza (capital de Aragão) na Brigada 21 da Coluna Durruti, setor Bajo Abril. O capitão, que era um amigo e companheiro
anarco-sindicalista, queria enviar Diego para a Escola de Guerra em Barcelona e em três meses ele voltaria com grau de tenente. Diego comenta o episódio: “Eu falei para o capitão que ele sabia que nós não havíamos sido educados para isso e, portanto, não aceitei o convite. Hoje eu estaria recebendo um salário mensal de tenente, é um dinheiro, não? Mas eu não estou preocupado, eu fiz o que minha consciência anárquica me aconselhava”.

Segundo o próprio Diego, o setor onde ele estava “não era um lugar de luta constante porque não tínhamos armas suficientes para o enfrentamento. Não recebemos ajuda, nem fuzis, passamos meses nessa situação”. Posteriormente, esse grupo foi substituído pelas Brigadas Internacionais e a nova linha de
defesa passou a ser em Montsec (Lérida), província de Catalunha. Diego fez parte de um grupo de defesa contra gazes na Brigada 21 da 26ª Divisão (antiga Coluna Durruti), que além de conservar o equipamento, treinava a utilização de máscaras, simulando situações de emergência, e transmitia esses conhecimentos para grupos de soldados em hora de descanso.

Em 20 de novembro de 1938, durante as homenagens do segundo ano da morte do anarquista Buenaventura Durruti, ao sair de madrugada para Barcelona, Diego foi ferido com um tiro e, após os primeiros socorros, levado para um hospital na cidade de Manresa (Bages-Barcelona). Foi justamente quando recomeçou a ofensiva franquista, chegando muitos feridos neste hospital.

Diego foi evacuado para o Monastério de MontSerrat (Bages-Barcelona), onde ficou por quinze dias e depois o levaram para Santo Hilário, recebendo a visita de sua mãe e esposa.

Em dezembro de 1938, com o avanço dos fascistas, Diego foi levado para o hospital de Ripoll (Barcelona-Catalunha), onde ficou mais 15 dias e seguiu para Puigcerda (Gerona-Catalunha), depois Bourg-Madame (já na França) e de trem até Auch (Gers-França), num quartel que tinha sido adaptado para um hospital.

No dia 31 de abril de 1939 (final da guerra civil espanhola), Diego foi enviado para o Campo de Refugiados Sept Fonds, e lá esteve (entre outros) com um companheiro de 16 anos chamado Juan.

Em Sept Fonds, pode manter correspondência com a família, porém, esteve o tempo todo mal alojado (não tinha leito para dormir, entre outras coisas) e tinha acesso a pouco alimento.

Durante alguns meses, participou de uma companhia de trabalho na construção de uma estrada de ferro entre as cidades de Le Mans (capital de Sarthe) e Le Loar, e outra nas proximidades de Bourdeaux (capital de Aquitania).

Em 1940, quando os alemães invadiram Bordeaux, Gimenez foi transferido para um campo de refugiados em Le Vernet (Ariège) e depois Melilesben, onde pode visitar os companheiros Fernando e Aurora, em Pamiers (Ariége).

Diego trabalhou ainda no rescaldo do rio Tet (sul da França) e na construção de uma central elétrica.

No dia 12 de fevereiro de 1942, Giménez saiu clandestinamente em direção a fronteira da Espanha. Sua companheira, Maria Roger Aguilar, havia lhe informado que a polícia espanhola não sabia de sua atuação sindicalista (naquela conjuntura social, participar de sindicato era considerado crime) e, portanto, não constava nenhuma punição contra ele.

Diego foi até a cidade de Figueras (Gerona-Catalunha), onde a polícia o levou algemado até um quartel de Barcelona. Ficou durante dez dias num Campo de Depuração em Reus (Tarragona-Catalunha) e foi libertado em 24 de fevereiro de 1942, quando pode novamente se reunir com sua esposa, seu filho e sua filha Luz Giménez Roger.

Em Barcelona trabalhou 10 anos em uma fábrica onde a carga horária chegava até 16 horas por dia. A situação econômica era muito difícil e mesmo com o trabalho de sua companheira, de seu filho (com 16 anos) e de sua filha (com 12 anos) não era o suficiente para superar as dificuldades.

No dia 16 de março de 1946, nasceu sua nova filha, Rosa Giménez Roger, e no dia 10 de abril de 1952, Diego resolveu embarcar para o Brasil com seu filho. Quinze dias depois, chegaram ao Porto de Santos.

Fixaram residência na Vila Santa Clara, na cidade de São Paulo, e em poucos dias, Diego e seu filho já estavam trabalhando.

Após oito meses, a esposa e as duas filhas puderam também imigrar para o Brasil.

Por intermédio de um amigo (Joaquim Vergara), Diego fez contato com a Sociedade Naturista Amigos de Nossa Chácara (que na época, era o local onde se realizava os Congressos Anarquistas no Brasil) e com o Centro de Cultura Social, desde então contribuindo e participando das atividades de ambos.

Entre 1972-1973, escreveu artigos para o periódico anarquista “Le Combat Syndicaliste” (Paris-França), com os pseudônimos de “El Buscador” e “El Exiliado”. E em 5 de outubro de 1975, escreveu e publicou em português (dividindo a autoria com seu irmão Roberto Giménez Moreno) o livro “Mauthausen – Campo de Concentração e de Extermínio” (tiragem de 2.300 exemplares), pela Ediciones HispanoAmericanas no Brasil.

Diego Giménez Moreno também proferiu diversas conferências em São Paulo (a maioria no Centro de Cultura Social) e em outras cidades paulistanas, sobre sua experiência libertária na guerra civil espanhola, assim como procurou sempre estar em contato com os jovens.

Um forte traço do caráter de Giménez é sua irrefutável autonomia, sendo adversário ferrenho do tabagismo e do alcoolismo. O vício constitui uma fraqueza de vontade e, por sua vez, o consumo de álcool e tabaco, além de prejudicar a saúde, fortaleça a indústria dessas drogas e do próprio capitalismo.

Nas palavras de Diego: “Ao comprar cigarro e álcool você está alimentando o patrão, que se aproveita de sua debilidade”.

Também é adepto do vegetarianismo, afirmando ter sido influenciado pelos escritos do dr. Isaac Puente Amestoy (C.N.T./F.A.I.), na revista Estudios.

Assim como outros de sua geração, Diego segue um velho lema anarquista: “Enquanto vivermos sob o capitalismo, devemos consumir o mínimo necessário”.

Hoje, aos 96 anos de idade, Diego Giménez vive em São Bernardo do Campo (São Paulo-Brasil), e com o mesmo vigor que combateu os fascistas na revolução espanhola, combate agora um novo inimigo: o mal de Parkinson.

Livros que falam sobre a trajetória anarquista de Diego Giménez Moreno:
– “Mauthausen – Campo de Concentração e de Extermínio”, de Giménez Moreno, Ediciones HispanoAmericanas, São Paulo – Brasil, 1975;
– “Três Depoimentos Libertários”, Entrevistas com Diego Giménez Moreno, Jaime Cubero e Edgar Rodrigues, Editora Achiamé, Rio de Janeiro – Brasil, 2002;
– “Anarquistas: Ética e Antologia de Existências”, de Nildo Avelino, Editora Achiamé, Rio de Janeiro – Brasil, 2004.